domingo, 22 de agosto de 2010

piauí

Meus amigos já estão, provavelmente, cansados de me ouvir falar no quanto gosto dessa revista. Mas é muito verdade! A piauí (assim mesmo, com minúscula) é uma revista linda, cheia de textos divertidos e dramáticos também. Jornalismo como eu sempre quis fazer. Alguns dizem que é jornalismo literário...Tem duas (na verdade tem uma infinidade, mas é necessário ter moderação) coisas que eu li nessa revista e quero mostrar.



A primeira é uma coisa bonita que a Luciana Elaiuy publicou na revista e que transcrevi logo baixo. A segunda merece outro post.


O SAL
Saiu pra comprar sal. Nem sempre a doce vida é a melhor vida. Doce enjoa. O sal dá sede. Sal deixa a gente vivo. Ele saiu pra comprar sal.
Deixou a casa acesa. A luz em cima da mesa. A busca é sempre a mesma: levar o sal pra casa, tempero de uma risada, graça até pro copo d'água,mas a sede é sempre vesga.
Ele cruzou esquinas, cruzou os dedos, mal sabia. O sal era a ausência que ele deixava quando saía, era o frio de estar sozinho, o sal era só até a esquina, era ela sentir a falta um pouquinho. E ela sentiu. Por isso temperou os planos pro futuro com têmporas tensas e empolgadas. Visões um tanto salgadas, mão molhada, ela sob a luz daquela mesa. Esfomeada. Esperou. Mais um tanto de espera, ele não voltou. Pesou demais a mão no tempo e o tempero dessalgou.
Ela escreveu na geladeira "o sal acabou". E saiu pra comprar um doce, mas a busca é sempre amor.

Just

Japas dançantes

Poubelle International - "The School Reunion" Official video from Nicholas Wakeham on Vimeo.

Mais de Sheakespeare

Onze meses depois que o jovem Montecchio rabiscou como quis o coração de Julieta, resolveu que era hora de não mais se importar. Arredio, afastou-se. Não escrevia mais, não ligava mais, não aparecia no meio da noite para passar curtas horas com a amada. O passar do tempo faz tudo parecer trabalhoso demais. E Romeu já tinha trabalho de sobra. Inconformada, Julieta acabou-se em bebida e cigarros. Todas as noites, olha para o porta-retratos vazio que comprou naquela tarde. No papel desbotado que antecede a fotografia, lê "Remember" e chora.

Echoes

"And no one sings me lullabies
And no one makes me close my eyes
So I throw the windows wide
And call to you across the sky"

sábado, 24 de julho de 2010

sábado, 17 de julho de 2010

Eu não gosto da Copa. Eu torço contra. Eu acho tudo tão vergonhoso. Eu posso ser desagradável falando sobre o tema.


Por uma vida sem vuvuzelas, patriotismo sazonal e feriados insanos.

Zido


Na Copa de 98, meu pai trouxe para casa um cachorro meio marrom, muito estranho. Ele ainda era um filhotinho e estava coberto de sarna e cheio de vermes. Da primeira vez que tomou banho, pareceu-me que eu estava segurando um sapo com pelos. Eu tinha 13 anos e adorava cães.

Meu pai disse que ele era um último de uma ninhada de 8 filhotes. A mãe, uma pastora alemã, dera cria lá perto da roça e acabara sendo atropelada e morrendo. Sem mãe, os frágeis filhotes morreram logo. Só aquele sobrevivera.

Como tínhamos acabado de adotar um filhote da cachorra da vizinha, o Roliço, tive que implorar para ficarmos com ele também. Ficamos. O Brasil perdeu na final e o cachorro recebeu o nome de Zidane.

Passei noites carregando o Zidane na cozinha, já que ele chorava muito e meu pai não era grande simpatizante de choros no meio da madrugada.

O Zido cresceu e se tornou um cachorro legal. Ele era meio bobo, mas era alegre e agitado. Eu queria ser como o Zidane.

Das peripécias, lembro que comeu uma cueca do meu irmão, roubou maçãs, matou frangos, quase me derrubou uma dúzia de vezes, jogou futebol, escapou e tomou banho no rio,teve a pálpebra rasgada pelo espinho de um ouriço, teve muitos bernes, teve casos, teve raros banhos, teve afagos,teve conversas. Depois ficou velhinho e teve osteoporose. Nunca mais correu daquele jeito ensandecido, com a língua de fora. No dia em que fez 12 anos, meu pai o encontrou morto pela manhã.

Sinto falta dos olhos mais felizes que já vi.